Terça-feira, Junho 09, 2009


Olhei nos teus olhos, o pensamento medíocre enroscou meus fios de cabelos e uniu as sobrancelhas, mas deixei a realidade de lado.


Reflexão : A realidade nunca me trouxe felicidade, nunca me deixou entorpecida, ao contrário, somente acentuou minhas rugas ao final dos olhos e uma dezena de fios brancos na cabeça. A racionalidade somente aumentou as despesas com cosméticos e as idas ao salão de beleza.


Conclusão: Coisas que não necessitava com um bom tinto Português e com doses de fantasias. Um brinde aos sonhos irreais.

Terça-feira, Junho 02, 2009


Hoje te esperei, esperei regressar ao tempo que sentia o cheiro romântico da manhã, sentir a vida envolta no substrato de um amor inocente, das anotações em diários e da trocas de bilhetes amorosos.

Hoje te aguardei, aguardei o desejo de rever as fotos devolvidas, de escrever cartas perfumadas e suspirar de vontade de voar pelo teu universo.

Mas, hoje te encontrei, encontrei a realidade desprendida da verdade, longe dos contos, distantes dos sonhos e diferente da descrição no papel perfumado. Meu cheiro também não é mesmo, não me detenho para sonhar, não me recrio para minha própria ilusão de ti.

Acabou a peça. Cometeu-se o espetáculo. LentamenteEsvazia-se o teatro, um intestino relaxado. Nos camarinsOs ágeis vendedores de mímica improvisada e retórica rançosaLavam suor e maquiagem. FinalmenteApagam-se as luzes que puseram à vista o triste trabalho, eDeixam na penumbra o belo vazio do palco maltratado.Na platéia sem espectadores, ainda com leves aromasSenta-se o pobre autor de peças, e insaciado procuraLembrar-se.(Brecht – Acabou a Peça)

Segunda-feira, Fevereiro 16, 2009

Cegueira



"Há ocasiões em que as palavras não servem de nada, quem me dera a mim poder também chorar, dizer tudo com lágrimas, não ter de falar para ser entendida."
(José Saramago -Ensaio sobre a Cegueira)

Sexta-feira, Janeiro 16, 2009

ANTROPOMORFO

(Frida Kahlo, "Auto-retrato com Macaco", 1945)


Entro sorrateiramente na realidade do símio sobre o ombro de Frida. Misterioso coadjuvante ofusca o olhar fixo e humano, ultrapassa a alegria de quase profunda dor. Amarrado o antropomorfo liberta a autobiografia visual da irrealidade estática, da tristeza e do pensamento obscuro.
Está atado por cordas, mas, está vivo por instintos primatas. Cobiço os desejos simples que conduzem sua existência, água, comida e galhos.
Não procura a imortalidade do amanhã e nem fazer-me perder este momento. Mesmo assim olho nos seus olhos e não vejo mais a Frida. Acredito que ela também não se via na confusão orgiáca dos seus traços e cores.
Ela está ao lado do meu passado e dos meus sonhos. Parada sequer fica escandalizada com minha atitude orgânica, desprogramada e primitiva.
Não penso simplesmente vou voando através do pensamento cego. E desenho o quadro, porque não consigo descrever minha pintura. Estou ciente do meu desrespeito ao insignificante alheio e do desconhecimento ao meu discursivo mundo, um tudo cheio de quase nada.
Dominada pelo fascínio insuspeito do meu eu esgoto as observações possíveis sobre a complexidade do seu olhar paralisado e do movimento ocular do símio.
A sua necessidade de amarrar os animais e seu medo com fugas. Também fujo quando não quero perder, não sei explicar o motivo, vou voando na minha cegueira intuitiva.
Excesso de vaidade assimétrica e delicadeza tosca. E saio de seu quadro Frida, saio de seu símio impregnada de mim. Confesso, não estou ofuscada, mas amarrada no medo abstrato de amarrar e depois fugir.

Ariadne Pereira

Sexta-feira, Janeiro 02, 2009

MAL SECRETO


"SE A CÓLERA QUE ESPUMA, A DOR QUE MORA

NA ALMA E DESTRÓI CADA ILUSÃO QUE NASCE;

TUDO O QUE PUNGE, TUDO O QUE DEVORA

O CORAÇÃO, NO ROSTO SE ESTAMPASSE;


SE SE PUDESSE O ESPÍRITO QUE CHORA

VER ATRAVÉS DA MÁSCARA DA FACE,

QUANTA GENTE TALVEZ QUE INVEJA AGORA

NOS CAUSA, ENTÃO PIEDADE NOS CAUSASSE.


QUANTA GENTE QUE RI, TALVEZ, CONSIGO,

GUARDA UM ATROZ, RECÔNDITO INIMIGO,

COMO INVISÍVEL CHAGA CANCEROSA!


QUANTA GENTE QUE RI, TALVEZ EXISTE,

CUJA VENTURA ÚNICA CONSISTE

EM PARECER AOS OUTROS VENTUROSA!"


(RAIMUNDO CORRÊA)

Quarta-feira, Novembro 19, 2008

Teseu: releitura de Clarice Lispector


Acordo e ainda cambaleante vejo Teseu na cozinha abrindo a porta da geladeira. Olho Teseu com um só olhar. Imediatamente percebe que não se pode estar vendo Teseu. Ver Teseu nunca se mantém no presente: mal vejo Teseu e já se torna ter visto Teseu há três milênios.

No próprio momento de se ver - olhar apaixonado - Teseu é a lembrança de Teseu. Assim vejo aquele por já tê-lo visto. Ver Teseu é a promessa de um dia chegar a ver Teseu. Olhar curto invivisível, se é que há pensamento; não há, há o Teseu. - Olhar é o necessário instrumento que, depois de usado, jogarei fora. Ficarei com o Teseu - O Teseu não tem um si mesmo. Individualmente ele não existe.


( Clarice Lispector by Ariadne Pereira)

Segunda-feira, Novembro 03, 2008

Fiquei na dúvida se deveria lhe responder, por tratar-se de resposta tão íntima e conseqüentemente tão passível de inverdades.
Quando descobri o amor?
O tempo, adianto desde já, que não consigo determinar numa escala de horas, minutos e segundos. Mas sei lhe adiantar o momento e foi precisamente no dia que senti o desamor do ser amado.
Sim, somente neste dia sem data, em que as horas definitivamente não pararam e a que a vida seguiu seu rumo ignorando um fato tão importante, descobri que o amava.