
(Frida Kahlo, "Auto-retrato com Macaco", 1945)
Entro
sorrateiramente na realidade do símio sobre o ombro de
Frida. Misterioso coadjuvante ofusca o olhar fixo e humano, ultrapassa a alegria de quase profunda dor. Amarrado o antropomorfo liberta a autobiografia visual da irrealidade estática, da tristeza e do pensamento obscuro.
Está atado por cordas, mas, está vivo por instintos primatas. Cobiço os desejos simples que conduzem sua existência,
água, comida e galhos.
Não procura a imortalidade do amanhã e nem fazer-me perder este momento. Mesmo assim olho nos seus olhos e não vejo mais a
Frida. Acredito que ela também não se via na confusão
orgiáca dos seus traços e cores.
Ela está ao lado do meu passado e dos meus sonhos. Parada sequer fica escandalizada com minha atitude orgânica,
desprogramada e primitiva.
Não penso simplesmente vou voando através do pensamento cego. E desenho o quadro, porque não consigo descrever minha pintura. Estou ciente do meu desrespeito ao insignificante alheio e do desconhecimento ao meu discursivo mundo, um tudo cheio de quase nada.
Dominada pelo fascínio insuspeito do meu eu esgoto as observações possíveis sobre a complexidade do seu olhar paralisado e do movimento ocular do símio.
A sua necessidade de amarrar os animais e seu medo com fugas. Também fujo quando não quero perder, não sei explicar o motivo, vou voando na minha cegueira intuitiva.
Excesso de vaidade assimétrica e delicadeza tosca. E saio de seu quadro
Frida, saio de seu símio impregnada de mim. Confesso, não estou ofuscada, mas amarrada no medo
abstrato de amarrar e depois fugir.
Ariadne Pereira